home Destaques, Especiais A história de Angela e os refugiados: “eles são muito humanos, melhores que muitos de nós”

A história de Angela e os refugiados: “eles são muito humanos, melhores que muitos de nós”

Fotos: arquivo pessoal

Ficar em um campo de refugiados por quarenta dias, entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017; vivenciar na pele o que eles sentem e até mesmo ser desprezada pelos gregos. Estes foram alguns dos desafios enfrentados por Angela Tsatlogiannis, advogada, mestre em direito internacional e especialista em direitos humanos. Aceita pela ONG norueguesa A Drop in the Ocean, a professora escolheu a Grécia para a realização de um trabalho voluntário com refugiados.

“A Grécia vive hoje em uma situação economicamente difícil e os gregos acham um absurdo os refugiados estarem lá. Mas absurdo maior parece ser a gente sair dos nossos países para ajudá-los”. Ela optou pela Grécia pela proximidade de costumes e cultura, mas mesmo assim enfrentou grandes desafios. “Eu passei uma semana em uma ilha que recebe também muitos refugiados, a ilha de Chios. Lá, além de hostilizarem muito os refugiados, eles também ofendem os voluntários”, ressaltou. Além de Chios, Angela também foi alocada em Nea Kavala e Chios, atuando na triagem de doações junto a quem procura abrigo – especialmente da Síria.

Assista à participação da professora Angela Tsatlogiannis no programa Rede de Opinião, da Rádio Web Rio Branco

Outra complexidade local, segundo Angela, está na combinação entre crise migratória na Europa e o fechamento de fronteiras: além de refugiados, alguns campos geridos pelo governo grego também abrigam imigrantes econômicos. “Os refugiados ainda tem esperanças, eles são refugiados, vão ser aceitos eventualmente em outros países. Mas os imigrantes econômicos não, e ali que acontece o pior dos problemas, porque as pessoas não conseguem voltar para trás e nem ir para frente, elas estão estagnadas e sem esperanças. E um indivíduo sem esperança se consome”.

Foto: arquivo pessoal

DIFICULDADES E FALTA DE ESTRUTURA

Só quem vê de perto pode relatar como as dificuldades de sobrevivência nesses países enfrentadas pelos refugiados não são fáceis. Angela contou que a maioria deles enfrentam o rigoroso inverno europeu, com sensação térmica de -20°C , morando em tendas à beira mar. “Eles chegam e ficam ali comendo comida que dão para eles de uma qualidade extremamente duvidosa, vestindo o que dão para eles vestirem e chovendo muito. Essas pessoas estão começando a enlouquecer, isso é, você ver a dignidade da pessoa se esvaindo. Onde vai parar isso?”, questionou.

Ela também tem a percepção de que o governo grego quer vencer essas pessoas de todas as formas, desestruturá-las, obrigando-as a fazerem alguma bobagem. “O que é fazer alguma bobagem? É o cara sair, ir pro mar e nadar até a Turquia, morre! O cara entrar no contêiner a noite e acordar no dia seguinte com um cinto no pescoço enforcado, que é uma coisa bastante comum. Eu graças a Deus não vi, mas outros voluntários viram. As tentativas de suicídio ou as pessoas adoecerem e enlouquecerem mesmo, falarem sozinhas. Então, a impressão que dá é que eles querem que elas cheguem nesse ponto, destruir o pouco que elas têm, para que elas desistam”.

Segundo dados da ONU, até 14 de março de 2015, mais de 143 mil pessoas viajaram para a Grécia vindas da Turquia. Durante o mesmo período, 448 pessoas morreram afogadas ou estão desaparecidas. Em 2015, o total de refugiados e migrantes afogados ou desaparecidos na travessia pelo Mar Mediterrâneo, chegou a 3,7 mil. Esse número a cada ano vem aumentando.

Os dados são da Organização Internacional de Migrações (OIM). Gráfico: BBC

EXPERIÊNCIA PESSOAL E FAMILIAR

Decidida a ir para os campos de refugiados na Grécia, Angela relembrou que, no começo, o único apoio que recebeu foi dos amigos. Mesmo após ter decidido viajar, sua família questionou: “quando eu disse que iria para um campo de refugiados, ninguém aceitou até o final. Agora que eles estão percebendo o que eu fiz“.

Angela explica ainda que a continuidade deste trabalho será feita por meio de palestras e outras ações junto aos seus alunos, imigrantes humanitários e refugiados que chegam ao Brasil. Para ela, a experiência foi extremamente gratificante. “O que eu vou levar comigo foi que eu aprendi com eles, aprendi a dividir. Eles são muito humanos, muito melhores que muitos de nós. Eu acho que as pessoas deveriam mudar um pouco a imagem que tem sobre o trabalho voluntário”, finalizou.

Foto: arquivo pessoal

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