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Ansiedade: Doença que limita

O transtorno que pode inviabilizar a vida social e profissional

“Eu fiquei sentado, olhando para o teto do ônibus, com o coração palpitando – uma amiga sentou ao meu lado e perguntou se eu estava bem, não consegui responder. Meu corpo estava gelado, minhas mãos suando e minha cabeça ia e voltava em meio à uma tontura”.

Há alguns anos, o que o estudante Rafael de Toledo sentiu no ônibus depois de abandonar uma prova, poderia ser considerado muitas coisas, menos doença.

Entre uma das doenças mais recorrentes do século XXI – ao lado da depressão e do estresse – por décadas, a ansiedade não foi vista como transtorno e por isso os estudos sobre a doença são recentes, datando os últimos 100 anos. O primeiro a falar sobre ansiedade foi Sigmund Freud, precursor da psicanálise. Antes dele, a ansiedade era vista como “um acúmulo de libido que não foi liberada”, como explica a psicóloga Renata Naous Tortolano. Em 1926, Freud publicou estudos acerca da ansiedade, colocando-a como o problema central da neurose.

Por se tratar de estudos recentes, muitas pessoas não entendem a dimensão da ansiedade e buscam tratamento para aliviar os sintomas somente quando chegam ao limite. Desde que ela foi categorizada como patologia se desencadeou entre diversos tipos, como males, fobias e transtornos – obsessivo-compulsivo, ansiedade social e do pânico.

A ansiedade é entendida como uma doença de quem vive no futuro em um constante estado de alerta. Sendo um sentimento vago e angustiante de medo e tensão. Aparece pela antecipação do perigo ou em pensar constantemente no sofrimento futuro.

“Quem sofre desse transtorno está constantemente com a cabeça no futuro, no que ainda não aconteceu, sente uma preocupação e medo de situações cotidianas e esse quadro a impede de realizar atividades comuns – isso tudo acompanhado de sintomas físicos”, afirma a psicóloga Renata Naous.

Entre os sintomas emocionais, estão: a sensação constante de que algo ruim vai acontecer, problemas de concentração e descontrole sobre os pensamentos. Em relação aos sintomas físicos, estão: palpitação, problemas para dormir, irritabilidade e agitação, suadouro e até mesmo a sensação de se estar “congelado”.

Números da ansiedade

Levantamos alguns dados através de perguntas e os resultados são, no mínimo, curiosos. Segundo pesquisa realizada com 100 participantes do sexo masculino e feminino, com idade entre 17 e 25 anos, chegamos aos seguintes resultados:

65,4 % dos entrevistados admitiram ser pessoas ansiosas.
Mais da metade dos entrevistados que assumiram ser pessoas ansiosas, não procuraram um médico ou psicólogo.
A maioria dos entrevistados que se consideram ansiosos desconhecem a causa da condição. Ao serem questionados de forma específica, a maioria escolheu problemas na escola/faculdade (66%), seguido de relacionamentos (44,7%) e problemas no trabalho (40,4%).

*Levantamento realizado através dos Formulários Google.

Toda ansiedade é patologia?

Por ser um termo recente, a ansiedade vem sendo explicada por diversos psicanalistas, mas entendê-la pode ser uma tarefa complicada, já que o quadro é difícil de ser definido.  A psicóloga Renata Naous explica que muitas vezes a ansiedade enquanto patologia é confundida com a ansiedade do dia-a-dia, mas que a grande diferença está na incapacidade de realizar uma atividade.

“Quando você se sente ansioso em fazer algo, mas isso é uma motivação para que você siga em frente, não é doença. Agora quando você não consegue realizar algo por ansiedade, quando se sente incapaz e deixa de realizar alguma atividade normal e diária, isso passa a exigir acompanhamento médico”

Lincoln Mirabelli

Mesmo sendo considerada uma sensação que surgirá em algum momento da vida, a ansiedade não é fácil de lidar. O programador Lincoln Mirabelli diz que uma das principais dificuldades é filtrar o perigo real do perigo criado pela própria mente.

“Às vezes me sinto ansioso sem ter necessariamente um motivo, é difícil filtrar meus pensamentos porque estou constantemente criando situações de perigo e não sei quando eu realmente preciso sentir medo.”

Para compreender a ansiedade é necessário entender o medo, como explica o neurocientista Joseph LeDoux em seus estudos na década de 1980. Ele realizou importantes apontamentos biológicos acerca da doença e comprovou que pessoas ansiosas apresentam uma região do cérebro, conhecida como amígdala, mais ativa do que a média. Essa região é responsável por processar o medo. Além disso, em famílias com mais pessoas ansiosas, há uma predisposição a doença. “Isso pode ser tanto pela criação, quando pela genética”, afirma a psicóloga e professora Estela Cristina Zanotti.

Rafael de Toledo

O estudante Rafael de Toledo, que tem feito acompanhamento psicológico após desencadear constantes crises de ansiedade desde o último ano do ensino médio, afirma que há casos na família.

“Minha mãe parou de trabalhar por causa de um quadro de depressão e por ficar tanto tempo em casa, desencadeou um quadro de ansiedade – convivi com isso minha adolescência inteira”.

Além disso, o estudante acredita que a patologia se intensificou pela sua nova rotina longe de casa, já que Rafael se mudou para cursar jornalismo na UNESP, em Bauru. “Eu vivo em alerta o tempo todo, me sinto congelado em meio a situações de estresse, como no dia da prova em que abandonei porque achei que falharia.”

Ansiedade no século XXI

A velocidade em que as informações chegam às pessoas e a necessidade de se estar sempre antenado acerca do mundo, transforma o século mais conectado da história em um espaço propício à ansiedade. “Somente o ser humano, posso afirmar com certeza, acorda de madrugada para checar se a foto que postou no facebook está sendo curtida o suficiente”, afirma a psicanalista Renata Santos Munhoz.

Hoje, existem muitas situações em que o estado de alerta ansioso é acionado, como o medo de perder o emprego, os impactos da crise econômica, o caos nos grandes centros urbanos, o lifestyle a ser seguido nas redes sociais, a obrigação de relações interpessoais criada a partir do que é compartilhado nas mídias – se você perder um frame, você está fora do círculo social.

Segundo dados da OMS – Organização Mundial de Saúde – o Brasil tem a maior taxa de ansiedade do mundo, sendo que 9,3% dos brasileiros apresentam algum transtorno da patologia.

“Os fatores econômicos, como o desemprego e a pobreza, problemas ambientais e a vida nas metrópoles intensificam esses dados, especialmente no Brasil”, afirma Renata.

Além desses aspectos, a ansiedade aparece mais em mulheres e a psicóloga afirma que os números são mais expressivos porque estão relacionados aos próprios hormônios do corpo da mulher, ao ciclo menstrual e a menopausa. Renata conclui que as expectativas sociais sobre as mulheres, desde a infância, contribuem para que elas estejam mais propícias ao desencadeamento da ansiedade.

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