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Livrarias e editoras ameaçam o futuro do livro impresso ao serem fechadas em todo o país

Tal contexto afeta o mercado editorial e suscita o surgimento de novas alternativas para o segmento

A segunda semana de novembro trouxe a divulgação do fechamento da última Livraria Cultura do Rio de Janeiro, que, após seis anos estabelecida no local do antigo Cine Vitória, encerrou suas atividades no dia 11 deste mês.

Ela se tratava da maior livraria do centro do Rio e o grupo Livraria Cultura manifestou-se afirmando que, diante do atual cenário do país, é preferível focar em unidades com alta performance e no crescimento do e-commerce do que ser “irresponsável” e manter lojas deficitárias.

Foto da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, localizado na Av. Paulista, em São Paulo – SP.

Além da comoção que tal notícia gerou nas redes sociais, a situação da Cultura mostra-se ainda mais grave, visto que a companhia precisou entrar com pedido de recuperação judicial. Outra marca que demonstra a fragilidade do momento para o mercado editorial é a rede Saraiva já ter fechado 20 de suas lojas até outubro do presente ano.

Matheus Machado, estudante de jornalismo, morador do Rio de Janeiro e frequentador assíduo da antiga localidade da Livraria Cultura, lamentou o fechamento do ambiente cultural e forneceu suas percepções sobre o caso em áudio compartilhado com o Profissão Foca:

Depoimento Matheus Machado

Mais cedo neste mesmo ano, os moradores da Zona Oeste de São Paulo também sofreram com a perda de uma livraria no Tietê Plaza Shopping, que encerrou suas atividades no dia 01 de abril e deixou uma significativa lacuna no que diz respeito ao acesso à conteúdo cultural, tendo sido substituída por uma loja de móveis.

Maria de Fátima Robustelli, ex-cliente da Leitura, compartilha o que sentiu quando teve conhecimento de que o espaço seria fechado: “Fiquei muito triste porque, além de ser um local que sempre foi ponto de encontro para os amigos, sinto que o shopping perdeu um pouco da sua principal loja. Lá a gente sabia que, muito mais que comprar um livro, estávamos disseminando conhecimento de alguma forma. E faz muita falta uma livraria naquele shopping, que é o mais perto da minha casa. Quando vou lá, não há mais um espaço para que eu veja os lançamentos, consulte como está o preço daquele livro que eu ainda não comprei, ou só rapidamente dê umas folheadas enquanto espero um amigo”.

Já a estudante de Direito, Isabela Pamponet, afirma que ficou chateada, mas não surpresa com essa sucessão de fechamentos de livrarias em nosso país. “Acho que o mercado está dando sinais de que, infelizmente, o consumo de livros impressos já não é mais prioridade. Por isso mesmo, embora previsível, saber que grandes livrarias estão em uma situação tão grave é doloroso para quem ama ler livros físicos. Ainda espero que as editoras e livrarias possam arrumar formas de inovar esse mercado e restabelecer o gosto pela leitura no papel que, para mim, é essencial na formação de todos”, conclui.

Alternativas e próximos passos

De fato, se por um lado essas notícias preocupam, por outro, essas dificuldades e incertezas também suscitam o surgimento de novas alternativas para manter o mercado ativo, tal qual sugeriu Pamponet.

O exemplo mais recente neste âmbito foi a campanha “2001 – 50 anos”, iniciativa organizada pela editora Aleph, que foi um sucesso e mostra que há sim alternativas e “uma luz no fim do túnel” para o ramo. Essa ação foi o maior projeto editorial do Catarse, ferramenta de financiamento coletivo que arrecadou apoio ao empreendimento da produção de uma edição comemorativa de 50 anos do livro “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke.

Foto do mailing de divulgação do projeto da editora Aleph.

Essa empreitada inédita fez história ao bater a meta estipulada um dia antes do fim da campanha, que se estendeu até às 23h59 do dia 14 de novembro, garantindo assim a realização do sonho da publicação da edição especial deste clássico da ficção científica.

A Aleph produzirá esse livro como uma tiragem única e exclusiva para os apoiadores do Catarse, já determinando de antemão que o produto não será comercializado em eventos, sites ou livrarias.

O sucesso deste projeto indica que, com pouco mais de 30 anos de existência, a editora Aleph provou para as demais parceiras do segmento que talvez o segredo para a sobrevivência no contexto atual não repouse no fato de se ter um grande nome, tradição ou comercializar um produto padronizado que será capaz de vender em grandes quantidades e agradar a todos.

A melhor alternativa parece ser mesmo integrar-se às redes sociais, aproximar-se de seu público e abrir uma frente ampla de produção de itens de grande qualidade em tiragens reduzidas, inserindo-se como referência dentro de seus nichos específicos.

Um estudo realizado pela Salesforce em seis diferentes países, abrangendo cerca de 6000 consumidores, aponta que 48% dos entrevistados optam pela compra de uma determinada marca se o produto é considerado único. Esses indicadores apenas confirmam que a relação de consumo de fato mudou. O marketing de segmento ganha cada vez mais espaço e o cliente quer se sentir exclusivo.

Em encontro de autores e leitores ocorrido dia 16/11 na livraria Martins Fontes da Av. Paulista, seis jovens e promissores autores nacionais promoveram exatamente um debate focado em quais as expectativas e possíveis cenários futuros para o mercado do livro nacional.

Foto do encontro de autores ocorrido na Livraria Martins Fontes.

Lá, Vitor Martins (autor de Um milhão de finais felizes e Quinze dias) falou sobre o papel de cada um na garantia de um contexto melhor: “Esse não tem sido um ano fácil, porque a gente não tem certeza de como as coisas vão ser. Tem um monte de livrarias e editoras fechando, então é muito angustiante isso. Mas, ao mesmo tempo, acho importante que a gente esteja junto, se ajude e converse com todas essas pessoas que às vezes não entendem como é que está o mercado agora. Ele sempre foi muito complicado e agora tá mais frágil ainda, então como é que a gente pode ajudar o mercado do livro? Temos que entender direitinho qual é o nosso papel no meio disso tudo: se eu sou escritor, leitor, se quero ser escritor, se eu sou editor, agente, qual é a nossa função aqui? Todo mundo tem um papel muito importante e todo mundo é imprescindível”.

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