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Número de assédio cresce no jornalismo

Em um mundo onde as mulheres buscam igualdade dia após dia, soa incrédulo se deparar com o machismo e o assédio de seus superiores, sendo moral, físico e sexual no seu ambiente de trabalho. Seja em qualquer setor que a mulher trabalhe não é fácil lidar, nesta matéria iremos tratar o assédio em mulheres jornalistas.

Uma pesquisa feita pelo SJDF (Sindicato Jornalista do Distrito Federal) mostra que aproximadamente 80% de jornalistas mulheres sofreram assédio moral no ambiente de trabalho. A profissão é uma das campeãs em assédio moral e sexual por parte de chefes ou colegas. Na pesquisa foram ouvidas 535 jornalistas em 21 estados brasileiros, e os relatos mostram números alarmantes em diferentes tipos de assédio. São discriminadas por raça e por gênero, e para quem acha que o ocorrido com a repórter Giulia Pereira, do Portal IG é um caso isolado, 78,5% disseram ter sido vítimas de atitudes machistas por parte de entrevistados.

Os números são similares com os de uma pesquisa feita em nível mundial pela INSI (The International News Safety Institute) e pelo IWMF (International Women’s Media Foundation) no ano de 2014, onde é dito que dois terços de jornalistas mulheres teriam sofrido algum tipo de intimidação, abuso ou ameaça, e segundo relatos, a maioria afirmou que isso aconteceu no ambiente de trabalho.

A Abraji (Associação brasileira de jornalismo investigativo), com parceria da Gênero e Número, agência independente de jornalismo de dados, realizaram uma pesquisa chamada Mulheres na Mídia, onde a fala de 61% das mulheres entrevistadas o assédio aparece como temática. Relatos de assédios episódicos, contínuos e crescentes. Relatam também assédios acontecidos às claras e coletivamente, em momentos de sociabilização de colegas homens, dos quais passam clima de normalidade e tende a ser banal, sendo assim, de difícil denúncia.

“Tem relatos de mulheres perseguidas durante meses por colegas ou fontes, a ponto de se sentirem intimidadas e com dificuldade de trabalhar”, afirmou Verônica Tostes, socióloga da UFRJ e uma das coordenadoras do estudo.

 

 

Ilustração de Juliana Gonçalves

Segundo a repórter Alana Rizzo, da revista Época em Brasília e diretora da Abraji, o assédio de fontes acontece com muita frequência em coberturas políticas, onde as autoridades se aproveitam de sua autoridade para constranger jornalistas.

Outro assédio frequente é o controle do vestuário feminino, que possui dois lados, o da restrição, para não distrair colegas homens ou fontes, e para passar seriedade, já o outro lado é o da instrumentalização do corpo da profissional, onde as jornalistas escutam frases como “sugiro que você coloque um decote bem caprichado” ou “aproveita que tem isso e use a seu favor”.

Casos são relatados todos os dias, sendo por meio de rede sociais, em um veículo de grande visibilidade e outros acontecem ao vivo mesmo. Como quando William Waack, no Jornal da Globo durante as Olimpíadas de 2016, alfinetou por diversas vezes a apresentadora Cris Dias. O grande ponto foi o machismo empregado na fala de Waack assim que a colega terminou de apresentar uma reportagem dos atletas da ginástica, “Tá todo mundo esperando que que você vai comentar (sic)”, diz Waack. Como resposta, Cris diz estar impressionada com os meninos, “sem mais” comentários. Waack, não contente com a resposta, questiona “Só?”, Cris decidiu então cortar o colega “Você quer que eu saia falando mesmo o que eu tô pensando?”.  

Não só caso de machismo como o de William Waack que as jornalistas são obrigadas a passar, aproximadamente a um ano atrás a repórter, Giulia Pereira, do Portal IG foi vítima de assédio quando entrevistava o cantor Biel, o mesmo chamou a repórter de “gostosinha’ e disse “se te pego, te quebro no meio”, chegou até mesmo a xingar a moça para pedir um beijo. No boletim de ocorrência registrado como assédio sexual na 1ª Delegacia da Mulher de São Paulo, a jovem de 21 anos ainda relata que ouviu: “queria que a sua entrevista fosse a última do dia, te levaria para um hotel e te estupraria rapidinho”.

A jornalista Priscila Tuna Quintal chegou a repensar sua carreira após ser constrangida por seus próprios chefes e entrevistados. Ela acredita que por ser mulher, passou por todos estes constrangimentos. Priscila lembra um caso onde numa entrevista, o entrevistado tentou tirar o microfone de sua mão, e depois dela recuar, o homem falou para alguns de seus colegas que estavam à sua volta, que Priscila deveria mesmo segurar o microfone por ser boa nisso, e que deveria estar acostumada a fazer esse tipo de coisa.

“Desmotiva, irrita e cansa. Nessa época, chorava horrores e pensava em largar tudo, era testada todos os dias”, diz Priscila.

Um caso um tanto diferente ocorreu em meados setembro de 2017, onde o jornalista, Guilherme Goulart, do Jornal Correio Braziliense fez uma crônica com o nome de “A Estagiária”, onde ele claramente impunha uma padrão de mulher “vulgar”, onde todos os homens ofereciam qualquer tipo de ajuda à estudante. A crônica teve uma repercussão tão grande que três dias depois da publicação o jornalista publicou um texto pedindo perdão a todas as mulheres que ele ofendeu. “Se me é permitido algum tipo de explicação, em “A estagiária” tentei e não consegui mostrar algo que, todos os dias, pode acontecer em diversos ambientes. Infelizmente. Nesse caso, especificamente, criei uma personagem para mostrar que o problema do assédio às mulheres continua sendo uma realidade apavorante e assustadora […]”, diz Goulart em sua carta aberta.

A campanha #JuntosContraoMachismo surgiu após a crônica publicada por Goulart, onde a ideia é mobilizar os homens no combate contra o assédio que as jornalistas enfrentam durante sua profissão. Sendo composta por uma série de vídeos trazendo depoimentos de jornalistas homens sobre tudo o que as mulheres ouvem em seu ambiente de trabalho.

O coletivo Jornalistas Contra o Assédio recebeu cerca de 200 frases numa consulta sobre que tipo de assédio as jornalistas já vivenciaram. “Entregamos o resultado para jornalistas homens comentarem. Assim, surgiu a série de seis vídeos com pelo menos quatro depoimentos gravados. É um convite à reflexão e, sobretudo, à ação“, diz em nota o coletivo à imprensa.

O artigo 14º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros é muito forte a sua conduta de repressão de jornalistas que usam de ameaças, intimidação e prática de assédio moral e/ou sexual, todo e qualquer ato que fere o código deve ser denunciado para as comissões de Ética dos sindicatos e em uma caso a Federação.

Confira abaixo a entrevista com a jornalista Ana Paula Rodrigues, concedida ao programa Foca na Entrevista, falando sobre assédio no meio jornalístico:

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