home Coberturas, Destaques Segunda edição do Publica! reúne apaixonados por literatura jovem

Segunda edição do Publica! reúne apaixonados por literatura jovem

Com direito a uma palestra especial sobre Harry Potter, para comemorar os vinte anos do lançamento do primeiro livro da série, as Faculdades Rio Branco realizaram a segunda edição do Publica!. O evento, organizado pelos alunos do curso de editoração, contou com cinco palestras sobre o universo da produção de livros no último dia 12 de agosto.

Considerando a popularização de conteúdos digitais, o que inclui uma gama de livros que passam a ter somente uma versão em ebook, é de se esperar que editoras e livrarias estejam mudando sua forma de comercializar livros. A perspectiva de que “o livro impresso vai morrer” pode assustar alguns leitores que preferem a versão física. No entanto, como Paulo André Chagas, designer gráfico da Bloco Gráfico, questionou aos espectadores da primeira palestra do dia: se o livro impresso não morreu, o que fazer agora?

Paulo mostrou como um trabalho de design faz a diferença ao explicar o processo criativo da diagramação, o livro enquanto objeto, arte e escultura. “Tinha que ter um pensamento gráfico para que não fosse só mais um livro, mas sim um objeto interessante”.
O palestrante deu destaque para a edição da coleção de Mário Pedrosa, militante político e iniciador da crítica de arte moderna brasileira, que demandou um grande projeto gráfico. As edições lançadas anteriormente foram cuidadosamente analisadas, bem como os materiais gráficos da época. Um antigo cartaz ou mesmo esculturas do movimento artístico daquele tempo foram usados como referências gráficas para criar o layout do livro. Através dessa pesquisa nasceu a ideia de tratar a coleção como uma peça de arte do movimento concreto. Os volumes foram recortados, deixando um dos cantos retos. Ao juntar as capas, se vê o nome do autor em uma tipografia geométrica, que lembra as obras daquele período.

DESCONSTRUINDO A MAGIA

Na segunda palestra, a jornalista e mestre em ficção científica Cláudia Fusco falou sobre como a saga de Harry Potter caiu nas graças do público. Traçando um paralelo com toda a história que a humanidade tem com a magia enquanto religião, Cláudia falou sobre como as crenças e práticas antigas eram voltadas para a natureza e para o indivíduo enquanto uma única pessoa, tendo o bruxinho de onze anos como referência. A magia sempre foi vista como algo pessoal e particular, não algo que seria compartilhado.

Foto: Juliana Gonçalves

Passando pelo antigo livro egípcio dos mortos, um dos mais antigos compilados de feitiços da antiga civilização, às guerras santas e cruzadas onde mulheres eram atiradas na fogueira quando consideradas bruxas, a palestrante revelou ainda como o conceito de magia passa por ciclos de simpatia a rejeição. Um exemplo é o movimento hippie, que trouxe de volta a cultura mais ligada a natureza logo depois de uma era em que tais pensamentos eram mal vistos.

Portanto, Harry Potter se tornou um fenômeno exatamente por quebrar com as antigas crenças de que a magia seria algo particular. Sendo compartilhada com os amigos, professores e família, os bruxos do universo de J. K. Rowling vivem em comunhão com a magia de forma a unir a sociedade dos bruxos “É tão apaixonante porque subverte os estereótipos da magia”, completou Cláudia.

Em outro debate “Editando o futuro e o fantástico”, além de Cláudia Fusco, também estavam Bárbara Prince, editora da Aleph, Carol Chiovatto, tradutora e Felipe Castilho, autor e editor do selo de quadrinhos Plot!. A mesa discutiu de forma animada o que é ficção e fantasia, além das diferenças na edição destes livros, tanto nacionais quanto estrangeiros, nos dias de hoje. “Histórias de ficção são possibilidades improváveis, as de fantasia são possibilidades plausíveis”, brincou Felipe Castilho.

NÃO É SÓ UM YA

É estrondoso o barulho que as coleções de livros voltados para o público adolescente vem fazendo nos últimos anos. A popularidade de sagas literárias levaram os grandes estúdios de cinema a mostrar estas histórias nas telas por todo o mundo. Distopias, fantasia, aventura, ação, thrillers, terror, policial, mistério… Todos estes gêneros encontraram seu público no YA (Young Adult ou Jovem Adulto). A quarta palestra do dia estava focada neste assunto, com Bruna Miranda, influenciadora digital, Eric Novello, autor, e Nathalia Dimambro, editora da Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras.

Um dos principais pontos discutidos na mesa foi o mito de que o jovem não lê. “Tem sempre a tecla de que não só o jovem não lê, mas que não existe um esforço para que ele leia. E você viu que ali tinha 20 mil pessoas, a maioria na faixa dos 10, 11 até os 20, 25 anos, gritando loucamente porque a Cassandra Clare [autora de Instrumentos Mortais] estava ali dando a palestra”, comentou Bruna Miranda, mencionando a Bienal do Livro de São Paulo, em 2014. Nathalia Dimambro complementou com o comentário de um dos organizadores da Bienal: “Hoje em dia, eles são como o Paul McCartney”.

Outro ponto discutido foi a própria experiência de ler um livro voltado para jovens. Mais do que isso, o relacionamento entre escritores e leitores mudou ao longo do tempo, se tornando mais interativo e próximo com as redes sociais. “Hoje o livro não termina quando você fecha. A pessoa não vê mais só o autor só quando a editora faz um evento, lança um livro. O autor vai mostrar que é uma pessoa, que ele está trabalhando. A gente se sente mais próximo do autor”, ressaltou Bruna.

Enquanto é comum ver jovens com livros de autores estrangeiros, isso é mais difícil quando se trata de autores nacionais. Esta perspectiva foi levantada pelos convidados. Seja por pouca divulgação ou simplesmente por ser mais fácil lidar com um livro que já tem fama no exterior, os autores tupiniquins tem muito mais trabalho para cair no gosto da garotada.

Para Eric Novello, é mais divertido ler algo que se passa no Brasil do que em um outro país, gerando identificação dos leitores com as obras. “Sabe uma coisa que é muito legal em autor nacional? É a vivência”, concluiu. Uma hipótese para esse fenômeno é o mito de que livro nacional “é chato”: quando se pergunta para um jovem sobre autores brasileiros, as respostas remetem aos clássicos exigidos na escola ou vestibulares.

POR TRÁS DAS LENTES DO EDITOR

Edição, preparação e revisão. Parece simples o trabalho de um editor, mas não é. A última palestra, que avançou até as 19 horas, contou com o editor Jean Xavier da Pearson Brasil. “São tanto elementos para olhar que dá medo de perder alguma coisa”, exclamou. Além do tema do livro ser bom, é fundamental entrar em contato com o autor e entender o assunto. O editor às vezes precisa reescrever trechos do manuscrito, deixando o conjunto mais claro. O projeto de um livro vai além de revisões gramaticais: exige cuidado com conteúdo, coerência e fluidez.

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